Os Estranhos que Nos Habitam usou Garota Exemplar como referência

Luciano Alves

05/02/2016 12:02 - Kelly Jamal, do ClickCultural






















Os Estranhos que nos Habitam mobiliza a narrativa tensional do suspense e promove uma pertinente discussão sobre o comportamento humano. O texto de Wagner D’Avilla foi inspirado no “Estudo Comportamental da Obediência” do psicólogo Stanley Milgram que avaliou e revelou o comportamento que demonstra como cidadãos comuns, pessoas aparentemente equilibradas, podiam cruzar os tênues limites da maldade.

Na obra, o autor manipula as informações dadas ao público de forma que tudo se encaixe aos poucos, sem jamais perder a sensação de estranhamento diante do exibido, como um grande jogo de xadrez formado por diálogos e ações estrategicamente pensadas.

Os personagens são inseridos em um jogo psicológico dentro de um espaço claustrofóbico e com encenação intimista. Indiretamente o público é convidado a entrar em uma história sobre solidão e carência. Trata-se de um tempo delicado, mexendo com as expectativas e jogando com os estereótipos. A dinâmica com o público propõe o jogo de adivinhar quem é a vítima e quem é o vilão da história.

A cenografia realista auxilia na apresentação das cenas como um trilher de cinema. O público acompanha detalhes das experiências físicas e mentais exploradas pelos protagonistas. A iluminação propõe um jogo sombrio e revela minimamente o que é necessário para construção do suspense. A trilha sonora é executada em parte pelo ator Diego Antunes que se delicia expressivamente em clássicos de Nina Simone, Nancy Sinatra e Doris Day.

Santiago (Bruno Narchi) é famoso escritor de romances que tem dificuldades em socializar, vive em posição de desconfiança e uma tendência para antipatizar com outras pessoas. Ele sofre do transtorno de agorafobia, e o medo de sair de casa o mantém enclausurado em seu apartamento há dois anos. Sua única companhia é a imagem de um Homem Branco (Diego Antunes) que ora se confunde como um dos personagens de seu livro, ora com alguém que ele se envolveu no passado.

Entre crises de síndrome do pânico e alucinações, ele divide sua atenção para tentar finalizar seu novo livro e na paixão platônica que mantém pelo vizinho do apartamento da frente.

Seu cotidiano passa a se tornar menos solitário, ao receber a visita constante de sua nova vizinha, a tímida e prestativa, Cecília (Carina Gregório) que insiste em manter um vinculo de amizade com ele. Duas pessoas que escondem um caráter frágil, uma personalidade ambígua e que têm muita dificuldade em lidar com os seus sentimentos.

O ClickCultural conversou com o diretor Antônio Ranieri sobre o espetáculo que tem despertado o lado mais obscuro de todos nós.

1 - A peça traz o lado negro de uma pessoa comum. Você acredita que todos nós somos capazes de chegar no limite da maldade?

Antônio Ranieri: Todo o ser humano tem um lado bom e outro mal. Somos luz e treva. Quem nunca, numa brincadeira ou num pensamento bobo desses de raiva, não pensou “eu queria matar fulano”? O que diferencia uma pessoa “normal” de um psicopata é uma linha muito tênue que uma vez ultrapassada não tem mais volta. Acredito que a palavra para a socialização seja equilíbrio, precisamos sim nos expressar em todas as formas de sentimento, desde que isso não afeto o outro, resultando num campo de maldade.

2- O trabalho, no palco, é uma reflexão para todos ali envolvidos, desde produção ao espectador, de forma direta ou indireta. Neste tempo que o espetáculo já está em cartaz você se impressionou com alguma mudança atenuante de alguém?

Antônio Ranieri: Sim. O que mais me impressionou foi a grande identificação do público. Durante os ensaios era perceptível e necessário o envolvimento de todos no processo. Ao decorrer das apresentações, tudo acabou ficando mais orgânico, porém mais técnico. No entanto, nunca pensei que ouviria de diversos espectadores, que se identificavam e se viam em personagens tão sombrios.

3- O texto é complexo e pode gerar diversas armadilhas para quem está assistindo. Esta condução para o lado do personagem foi criada de que maneira?

Antônio Ranieri: Busquei criar personagens que fossem reais, em que o espectador pudesse assistir e se envolver com seus sentimentos. O texto já nos coloca num grande quebra cabeça, como um bom suspense. Por isso, decidimos criar uma linha de pensamento lógico, e é exatamente isso que faz o público se surpreender com o final revelador que se apresenta.

4 - Algum filme ou série foi usada como referência para a criação do espetáculo ou personagem?

Antônio Ranieri: Diversas séries e filmes, entre eles “Gone Girl” de David Fincher; “We Need Talk About Kevin” de Lynne Ramsay e o clássico “ Mulholland Drive” de David Lynch

5 - Indiretamente o público é convidado a fazer parte da história. Você acredita que é preciso estar preparado para viver aquilo mesmo que na poltrona de um espetáculo?

Antônio Ranieri: O teatro, assim como a arte no geral é um faz de conta. De forma nenhuma precisamos estar preparado para tal, ou sermos tal, para assistirmos ou vivenciarmos qualquer experiência artística. É tão gratificante para o espectador leigo sobre o assunto tratado quanto para aquele que está repleto de conhecimento. O teatro sempre irá atingir em cada um em sua individualmente.

6 - Como o “Estudo Comportamental da Obediência” do psicólogo Stanley Milgram, cujo a obra foi inspirada mudou ou criou sua linha de pensamento para dirigir este espetáculo?

Antônio Ranieri: No início dos ensaios, eu me coloquei como um dos paciente dos experimentos de Milgram, obediente e atento para as linhas de pensamentos que tais personagens me apresentavam. É instigante notar que uma pessoa “aparentemente” normal, pode apresentar traços tão assustadores, visto os estudos pelo cientista realizado em pacientes que foram torturadores e assassinos na segunda grande guerra. Essa aparente disparidade me deu maior clareza para criar um ambiente realista, que variasse entre o seco e ríspido e o melodrama com toques de humos ácido.

7 - Qual o comportamento humano que mais te assusta e mais te inspira como diretor?

Antônio Ranieri: O que mais me atiça enquanto diretor são os sentimentos humanos e como eles podemos afetar nossos comportamentos. Gosto de falar de todos os tipos de sentimentos, tanto nas minhas direções como nos textos que escrevo. Essa é a base que me leva a investigar no ator a suas relações de conduta e como isso deve ou pode chegar a cena.


SERVIÇO

ESPAÇO PARLAPATÕES (98 lugares)
Praça Roosevelt, 158 – Centro
Bilheteria: 3258.4449
Terça a quinta das 16h as 21h; sexta e sábado 16h a meia-noite, domingo 16h às 20h. Formas de Pagamento: Dinheiro e todos os cartões de débito e crédito. Não aceita cheque.
Vendas: www.ingressorapido.com.br / 4003.1212
Sábados às 20h
Ingressos: R$ 40
Duração: 70 minutos
Recomendação: 15 anos
Gênero: Suspense / Drama

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